Zuzu Angel - Mulher , Mãe e Estilista- Alma Política
Zuleika de Souza Netto nasce em Curvelo, em 1921. Foi criada em Belo Horizonte, onde conhece o norte-americano Norman Angel Jones, com quem se casa. Depois de viver um tempo na Bahia, local de nascimento de Stuart, a família se estabelece no Rio de Janeiro, onde nasceram Ana Cristina e Hildegard. Na cidade Zuzu abre um ateliê em sua própria casa – quando transforma seu quarto em oficina de costura. Nasce a “Zuzu Saias”. Mesclando referências locais e cosmopolitas, seu espírito de vanguarda se fortalece com a criação de estampas próprias que valorizam a identidade brasileira. Pássaros, borboletas, flores e frutos. A brasilidade também aparece nos materiais: rendas, bordados, pedrarias, contas de madeira, bambus e conchas.
No auge do sucesso de Zuzu e de sua projeção internacional, seu filho é preso. Em 1971, a estilista realiza, em Nova York, um desfile de protesto e a partir de então o luto passa a ser seu hábito. Roupa preta, véu, crucifixos, o cinto, o anjo. “Esse desfile foi uma ação entre muitas outras. Ela não fez esse desfile e parou. Até a sua morte ela nunca parou. Atuou o tempo todo. Militou o tempo todo”, conta Hildegard Angel, que criou e dirige o Instituto Zuzu Angel, o IZA. Por onde fosse, sempre em busca de informações sobre Stuart, também distribuía o santinho que mandou imprimir com a foto do filho, inquiria políticos, militares, artistas, jornalistas, quem pudesse ajudá-la.
Desde a infância em Curvelo, Minas Gerais, Zuzu Angel costurava por dote e costume.
No Rio de Janeiro, participou do grupo de costura que ofereceria uniformes a crianças da obra beneficente Pioneiras Sociais, fundado pela primeira-dama Sarah Kubitschek.
Em 1957, começou a produção artesanal de saias em seu apartamento, em Ipanema, para reforçar o orçamento doméstico. Conquistou clientes, ampliou a criação com blusas, acessórios e ajudantes e virou Zuzu Saias. Em 1961, depois do divórcio, mudou-se com o ateliê para uma casa maior, no mesmo bairro. A clientela cresceu, o trabalho conquistou prestígio. Em 1966, Zuzu Angel era uma etiqueta conhecida na alta sociedade carioca e a estilista promovia desfiles, aparecia na imprensa. Nos anos seguintes, continuou progredindo, chegou aos Estados Unidos e à mídia de moda internacional.
Zuzu Angel vivenciou a trágica morte de seu filho Stuart nas mãos da ditadura militar, contra a qual ele havia protestado. Foi um toque de despertar arrasador que mudou profundamente sua vida pessoal e profissional e que terminou por levá-la a sua própria morte. A linha de vestidos de protesto de Zuzu Angel é única na história moderna: seus motivos bordados de símbolos ingenuamente desenhados do regime militar, em cores suaves, eram comentários pequenos, mas fortes e persuasivos. Zuzu Angel usou sua arte para denunciar abertamente o terror e a violência dos brasileiros poderosos e impotentes por todas as pessoas anônimas que tinham sofrido. Poucos protestos isolados foram tão fortes, antes ou depois, na história da humanidade. Usando suas melhores armas de paixão e compaixão, Zuzu Angel fez da moda parte responsável pela vida real no Brasil – o mais forte e maior impacto universal de sua vida e seu trabalho.
Empresária severa, projetou um show room inovador no Leblon décadas antes do agora famoso conceito de “designer boutique”. Usar discretamente seu nome como um logo pessoal, obviamente, contudo, localizado nos punhos ou em costuras externas, era algo avançado: entre os primeiros no mundo. Zuzu promoveu seu trabalho em Nova York, introduzindo não somente a moda brasileira, mas estabelecendo uma ligação importante e duradoura entre o jeitinho brasileiro descontraído e o estilo americano emergente da Costa Oeste que, por si só, tornou-se uma influência permanente na moda ocidental.
O projeto Ocupação, do Itaú Cultural, chega à 17ª edição com exposição, performances, mostra de cinema e encontros com estilistas, resgatando a memória de uma das mulheres mais singulares da nossa história, Zuzu Angel – Zuleika Angel Jones (Curvelo, MG, 1921 – Rio de Janeiro, RJ, 1976).
Responsável pela gênese da moda brasileira, empresária pioneira, artista de êxito e mulher sensível às transformações da sociedade, no auge do sucesso Zuzu direcionou sua vida e obra para a busca pela verdade sobre o desaparecimento do filho – Stuart Angel Jones, torturado e morto pela ditadura militar aos 26 anos –, determinando, assim, a própria morte.
A moda, importante segmento de reflexão da cultura, está pela primeira vez na pauta da Ocupação, que inova ao se espalhar por diferentes espaços e propor uma exposição em movimento: os vestidos criados por Zuzu desfilam em modelos e atrizes, que também dão voz às cartas que ela enviava na incessante busca por Stuart.









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